Fuga do Algoritmo: Criadores Brasileiros Estão Trocando Instagram e TikTok por Plataformas Alternativas — e Faturando Mais
Photo: Jean-Baptiste Debret, Public domain, via Wikimedia Commons
Se você acha que o algoritmo do Instagram é seu amigo, provavelmente nunca tentou postar um Reel às 18h de uma sexta-feira e viu ele afundar mais rápido do que promessa de político em campanha. A realidade dos criadores de conteúdo brasileiros em 2024 é essa: anos construindo audiência, centenas de horas de produção e, no final, o alcance orgânico de uma nota de rodapé num contrato de seguro.
Mas tem gente que já cansou de implorar atenção para o algoritmo — e resolveu dar o fora.
O Grande Êxodo Digital
Nos últimos dois anos, uma onda silenciosa mas consistente de criadores brasileiros começou a explorar plataformas que a maioria das pessoas ainda confunde com nome de remédio ou de startup sueca. Bluesky, Threads, Kick, Substack, Locals — nomes que soam estranhos para o grande público, mas que viraram terra prometida para quem estava sufocando nas regras cada vez mais opressivas das gigantes.
E olha: não estamos falando de criadores pequenos, desesperados, postando foto de gato às 3 da manhã na esperança de um milagre. Estamos falando de profissionais com dezenas de milhares de seguidores que perceberam que ter 200 mil seguidores no Instagram e alcançar apenas 3 mil pessoas por post é, tecnicamente, uma fraude emocional.
"Eu tinha 180 mil seguidores no Instagram e meu post orgânico chegava em talvez 4 mil pessoas. Fui pro Bluesky com zero seguidores e em três meses já tinha 40 mil — e o engajamento era dez vezes maior", conta Rafael Menezes, criador de conteúdo sobre política e cultura pop de Recife, que pediu para não revelar seu perfil público por medo de 'dar mau-olhado'.
Bluesky: O Twitter que o Twitter Queria Ser
Depois do caos que se instalou no X (a plataforma que antes era chamada de Twitter, antes de virar uma espécie de bar de estrada digital), o Bluesky surgiu como alternativa descentralizada — e os brasileiros, como de costume, chegaram em massa e tomaram conta.
O Brasil chegou a ser o país com maior número de novos cadastros no Bluesky em determinados períodos de 2023 e 2024, transformando a plataforma numa espécie de território nacional não-oficial. Criadores de nicho — jornalistas independentes, escritores, professores, comunicadores de causas específicas — encontraram ali algo raro: conversas de verdade, sem o ruído ensurdecedor dos algoritmos de recomendação que empurram conteúdo de indignação para gerar engajamento.
Para os criadores, isso tem um valor imenso. Quando o alcance é orgânico e a audiência chegou até você por vontade própria, a taxa de conversão para produtos, cursos e assinaturas dispara. "Minha lista de e-mails cresceu mais em quatro meses de Bluesky do que em dois anos de Instagram", relata Camila Fonseca, criadora de conteúdo sobre finanças pessoais de Belo Horizonte.
Kick: A Plataforma de Lives que Está Roubando os Streamers da Twitch
Enquanto o Bluesky atrai o pessoal mais textual, o Kick virou o novo lar de streamers brasileiros que estavam de saco cheio das políticas de monetização da Twitch. E não é difícil entender por quê: enquanto a Twitch leva 50% da receita de assinaturas dos streamers menores, o Kick fica com apenas 5%. Cinco por cento. Isso não é uma plataforma, isso é quase filantropia.
Streamers brasileiros de médio porte — aqueles que na Twitch mal conseguiam pagar o plano de internet com os ganhos — migraram para o Kick e viram sua renda dobrar ou triplicar sem precisar aumentar um único seguidor. A plataforma ainda está longe do tamanho da Twitch, mas justamente por isso oferece algo que a gigante já não consegue mais dar: visibilidade para quem está chegando.
"Na Twitch, você some no meio de milhares de streams simultâneos. No Kick, tem menos gente, mas quem te encontra fica. É como a diferença entre gritar num estádio lotado e conversar numa roda de amigos", explica Lucas Drummond, streamer de games indie de São Paulo que migrou para o Kick em 2023.
Threads e a Estratégia da Paciência
O Threads, apesar de ser uma criação do próprio Meta — a mesma empresa dona do Instagram que tortura criadores com algoritmos impiedosos —, tem funcionado de forma surpreendentemente diferente para muita gente. Por ainda estar em fase de crescimento e com menos anunciantes disputando espaço, o alcance orgânico no Threads é notavelmente superior ao do Instagram.
Criadores brasileiros mais espertos perceberam isso cedo e usaram o Threads como vitrine para direcionar audiência para seus outros canais — especialmente newsletters no Substack e grupos fechados no Discord, onde a monetização direta é mais simples e menos dependente de algoritmos.
A estratégia, batizada informalmente por alguns criadores de "nomadismo digital", consiste em estar presente nas plataformas novas antes da multidão chegar, construir autoridade quando a concorrência é baixa e monetizar antes que o algoritmo resolva cobrar pedágio.
O Dinheiro Está Onde a Multidão Ainda Não Foi
Há uma lógica econômica simples por trás de tudo isso, e ela tem nome: custo por atenção. Nas plataformas grandes, a atenção do usuário já foi comprada e recomprada tantas vezes que o preço subiu absurdamente. Nas plataformas menores, essa atenção ainda está em oferta — e quem chega primeiro paga menos para conquistá-la.
Isso se reflete diretamente na monetização. Criadores que constroem audiência em plataformas alternativas relatam taxas de conversão muito maiores para produtos próprios: cursos, mentorias, livros digitais, comunidades pagas. A lógica é que uma audiência que te encontrou por vontade própria, sem ser empurrada por algoritmo de recomendação, tem muito mais propensão a abrir a carteira.
"Meu curso de escrita criativa vende muito mais para os 8 mil seguidores que tenho no Bluesky do que para os 60 mil que tenho no Instagram. É audiência qualificada versus audiência inflada", diz Marina Cavalcante, escritora e criadora de conteúdo literário do Rio de Janeiro.
O Algoritmo Não É Seu Inimigo — Mas Também Não É Seu Amigo
Seria ingênuo dizer que as plataformas alternativas são o paraíso eterno. Elas também vão crescer, também vão atrair anunciantes, também vão eventualmente apertar o alcance orgânico para vender mais publicidade. É a lei da gravidade do capitalismo digital.
Mas por enquanto, para os criadores brasileiros que já perceberam o jogo, a vantagem de chegar cedo é real e mensurável. E mais do que isso: a experiência de construir comunidade em plataformas menores está ensinando uma geração de criadores a depender menos de uma única rede social e mais de sua própria audiência fiel — seja ela onde for.
No fim das contas, o algoritmo traidor pode ter feito o maior favor da vida para muita gente: obrigou criadores a procurar novos caminhos e descobrir que, lá fora, o mundo digital é bem maior do que o feed do Instagram deixa parecer.
E a girafa, como sempre, enxerga mais longe do que os outros. Inclusive quando o assunto é para onde o dinheiro está indo na internet brasileira.